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Dúvidas frequentes 10 min de leitura

Demanda contratada, ultrapassagem e fator de potência: dúvidas de quem paga a conta

A conta veio com multa de ultrapassagem e ninguém sabe qual partida de compressor derrubou o mês inteiro.

A fatura chegou com uma linha que não estava lá: demanda de ultrapassagem. Alguns milhares de reais. Ninguém ligou máquina nova, a loja vendeu o mesmo tanto, o kWh está parecido com o do mês anterior.

O que aconteceu foi um intervalo de quinze minutos. Uma queda de energia, ou um degelo que terminou junto em seis evaporadores: todos os compressores voltaram ao mesmo tempo, com as câmaras aquecidas, e ficaram em carga cheia o bastante para o medidor registrar uma média nova.

Essa média virou a demanda faturada do ciclo inteiro. O resto do mês foi bem comportado — e não importa. A conta de demanda não olha média. Olha o pior quarto de hora.

Demanda, ultrapassagem e fator de potência em respostas curtas

O que é demanda contratada? A potência em kW que a distribuidora se compromete a manter disponível — e que você paga todo mês, usando ou não. No Grupo A (média e alta tensão) a tarifa é binômia: energia (kWh) e demanda (kW) em linhas separadas.

Como a demanda é medida? Não é o pico instantâneo do amperímetro. É a média da potência ativa em intervalos de quinze minutos. O maior desses intervalos no ciclo de faturamento é a demanda medida do mês.

O que caracteriza ultrapassagem? A demanda medida passar da contratada além da tolerância regulatória. A referência é a Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021, que consolidou e substituiu a REN 414/2010. A tolerância varia com o subgrupo de tensão — costuma ser 5% para A1, A2 e A3, e 10% para A3a, A4 e AS. Confirme o percentual e o fator do seu caso no texto vigente da resolução e no contrato com a distribuidora.

Quanto custa ultrapassar? A parcela excedente é cobrada por tarifa penalizada — historicamente o dobro da tarifa de demanda — e incide sobre toda a diferença acima da contratada, não só sobre o que passou da tolerância.

E o fator de potência? É a relação entre potência ativa (kW, a que faz trabalho) e aparente (kVA, a que precisa ser transportada). O mínimo é 0,92 — indutivo das 6h às 24h e capacitivo das 0h às 6h — apurado hora a hora, não pela média do mês. Abaixo disso, a distribuidora fatura energia e demanda reativas excedentes.

Que horas é a ponta? Três horas consecutivas, de segunda a sexta, fora de feriados, definidas pela distribuidora — normalmente entre 17h e 22h. Verifique a sua.

Consumo é quanto você usou no mês inteiro. Demanda é quanto você pediu de uma vez, no pior quarto de hora. São duas contas diferentes, e é a segunda que gera penalidade.

Antes de discutir a conta, tenha em mãos: subgrupo tarifário, modalidade (azul ou verde), demanda contratada e o memorial de cálculo da fatura.

O que da fatura a refrigeração realmente mexe

A refrigeração costuma responder pela maior parcela da carga elétrica de um supermercado ou de uma planta de alimentos. Mas não mexe em todas as linhas da fatura do mesmo jeito.

Componente da faturaO que a refrigeração faz com eleOnde se controla
Demanda contratada (kW)Não é a soma das placas dos racks e condensadoras que define o valor: é quanto roda juntoEscalonamento de partidas e de degelo; contrato dimensionado pela curva de carga medida
Demanda de ultrapassagemUm único intervalo de 15 minutos com tudo em carga cheia ao mesmo tempoAlarme dentro do intervalo em curso e corte de carga não crítica antes do fechamento
Consumo na ponta (kWh)Degelo, pull-down e climatização de salão coincidem com a pontaAntecipar degelo e pull-down; travar setpoint e horário da climatização
Consumo fora de ponta (kWh)Condensador sujo, carga de fluido baixa, degelo em excesso, porta aberta, ventilador paradoManutenção preditiva e leitura de consumo por ativo, não pelo total da loja
Energia reativa excedente (fp abaixo de 0,92)Motores de compressor e de ventilador em carga parcial puxam reativoCorreção dimensionada pela carga real e verificada hora a hora
Excedente capacitivo (0h às 6h)Banco fixo dimensionado para o pico da tarde segue ligado com a loja fechadaBanco automático ou seccionamento por horário
Bandeiras tarifáriasMultiplicam cada kWh desperdiçadoSó há um caminho: reduzir o kWh

As três primeiras linhas se resolvem com horário. As três seguintes, com manutenção e correção de reativo. São problemas diferentes, com donos diferentes na empresa, e é comum atacar um achando que se ataca o outro. Se o seu caso é consumo alto e não pico, comece pelas 12 verificações antes de culpar a tarifa.

Os quinze minutos que decidem o mês

Um motor de indução em partida direta puxa de 5 a 8 vezes a corrente nominal. É grave: derruba tensão na barra, castiga contator e aquece enrolamento. Só que dura de 1 a 3 segundos. Dentro de um intervalo de 900 segundos, isso pesa quase nada na média.

Ou seja: a corrente de partida é um problema de qualidade de energia, não de demanda. Ela merece atenção pelo dano ao motor e à instalação — assunto de sobretensão, subtensão e sobrecorrente —, mas não é ela que escreve a linha de ultrapassagem na fatura.

Quem escreve essa linha é o que vem depois: o compressor que arrancou fica em carga cheia por 20, 30, 40 minutos. Quando seis fazem isso juntos, o quarto de hora inteiro fica no teto.

A aritmética é simples. Seis compressores de 15 kW somam 90 kW rodando juntos. Se na operação normal só três rodam ao mesmo tempo, o patamar é 45 kW. Basta um evento que junte os seis por quinze minutos para a demanda do mês subir 45 kW — ainda que aconteça uma vez só em trinta dias.

A multa de demanda quase sempre nasce de uma decisão operacional de quinze minutos, não de um contrato mal dimensionado.

Antes de mexer no contrato, reconstrua o evento: peça o memorial de medição do ciclo, localize o intervalo de maior valor e cruze com o que estava ligado. Quase sempre a resposta aparece na primeira tentativa.

Por que a partida simultânea é problema de gestão, não de contrato

A saída óbvia depois da multa é aumentar a demanda contratada. Funciona — e cria custo fixo por doze meses para um patamar que você usa quinze minutos por mês. Trocar penalidade eventual por mensalidade permanente raramente compensa. Na refrigeração, a simultaneidade vem de quatro lugares.

Degelo programado no mesmo horário

Controladores saem de fábrica com horários redondos: 00h, 06h, 12h, 18h. Instalados um a um ao longo dos anos, todos ficam iguais. Duas coisas somam: as resistências de degelo, de 2 kW a 9 kW por evaporador conforme o porte, e o pull-down logo depois, com serpentina quente e câmara aquecida puxando todos os compressores em carga cheia. Corrigir isso é assunto de frequência e duração de degelo.

Retorno de energia sem escalonamento

Faltou luz por vinte minutos. Quando volta, tudo religa no mesmo segundo — e as câmaras aqueceram, então nenhum compressor vai ciclar. Todos entram em pull-down simultâneo por meia hora ou mais. É o cenário clássico de recorde de demanda.

Abertura da loja

Iluminação, climatização partindo com o prédio quente, cortinas noturnas recolhidas nas ilhas e expositores recuperando temperatura de uma vez — tudo no mesmo minuto porque o horário de abertura é um só.

A hora mais quente do dia

Com ar de condensação a 35 °C em vez de 25 °C, a pressão de descarga sobe, a relação de compressão aumenta e o compressor puxa mais potência para a mesma capacidade. A regra de bolso do setor: cada grau a mais na temperatura de condensação custa de 2% a 3% no consumo do compressor. Some o splitão do salão em carga máxima na mesma hora: o pico térmico do dia vira o pico elétrico do mês.

Nenhum dos quatro se resolve com cláusula contratual. Todos se resolvem com horário, sequência e alguém olhando. Contrato bem dimensionado é consequência de um perfil de carga governado — não substituto dele.

Fator de potência: onde a refrigeração estraga o 0,92

Motor de indução só tem fator de potência bom perto da plena carga: 0,85 a 0,88 é típico. A 25% de carga, o mesmo motor despenca para a faixa de 0,5 a 0,6. E refrigeração vive em carga parcial: de madrugada, no inverno, com a câmara já em temperatura.

Some os ventiladores: motores pequenos, muitos, com fator de potência ruim por construção, ligados quase o tempo todo em evaporadores e condensadores. Um a um não parecem nada. Somados na loja inteira, contam.

Daí a armadilha mais frequente: o banco de capacitores fixo, dimensionado para o pico da tarde. Ele corrige bem às 16h. Quando a loja fecha e a carga cai, a mesma capacitância segue injetando reativo numa instalação que não precisa mais dele. O resultado é excedente capacitivo entre 0h e 6h — exatamente a janela em que a regra fiscaliza o lado capacitivo. Corrige-se o dia e paga-se pela noite.

Há ainda os acionamentos eletrônicos. Inversores e partidas suaves entregam bom fator de deslocamento, mas injetam distorção harmônica — que aquece capacitor e pode excitar ressonância com o banco: célula estufada, fusível queimando sem causa aparente, estágio que desliga sozinho. O fator de potência piora em silêncio até aparecer na fatura.

Fator de potência não se estima pela placa: mede-se tensão e corrente por fase, hora a hora. Peça à distribuidora o memorial com o fator horário e olhe as horas de 0h às 6h em separado — muita conta que parece boa na média mensal está sendo penalizada por seis horas de madrugada.

Azul ou verde: a modalidade certa depende do que você consegue deslocar

As duas modalidades horárias do Grupo A cobram demanda de formas diferentes. A escolha depende do que dá para aliviar na ponta.

CritérioTarifa horária verdeTarifa horária azul
Demanda contratadaUma só, válida para ponta e fora de pontaDuas: uma de ponta e uma fora de ponta
Energia na pontaBem mais cara que fora de pontaMenor que a da verde no mesmo horário
Demanda na pontaNão há parcela separadaExiste e costuma ser a mais cara da fatura
Costuma servir a quemConsegue aliviar carga nas três horas de pontaRoda igual nas 24 horas
Risco típico em refrigeraçãoPonta cara se degelo e pull-down caírem no horárioDemanda de ponta alta por não escalonar partidas
DisponibilidadeUnidades abaixo de 69 kV, como A4, A3a e ASObrigatória a partir de 69 kV; opcional abaixo

A comparação honesta só sai com a curva de carga medida hora a hora, de alguns meses — um de verão e um de inverno. Simulação em cima do resumo da fatura erra: o resumo não mostra o comportamento dentro do dia, que é o que decide.

Confirme com a distribuidora os prazos e as condições para trocar de modalidade ou alterar a demanda contratada: há período mínimo de vigência e aviso prévio. E medir por equipamento não exige trocar o quadro elétrico, como está em medir consumo por equipamento.

Ações para reduzir picos sem prejudicar a temperatura do produto

A regra que não se negocia: nenhuma medida de demanda pode empurrar produto para fora da faixa. Câmara de congelados carregada, entre -18 °C e -25 °C, tem inércia térmica na massa e admite manobra. Resfriados de 0 °C a 4 °C, expositor aberto e ilha de laticínios não têm essa folga.

  • Levante o horário de degelo de cada evaporador e distribua em janelas diferentes, com 20 a 30 minutos entre grupos.
  • Tire o degelo do horário de ponta: além da resistência, é o pull-down seguinte que pesa.
  • Antecipe o pull-down dos congelados: leve a câmara ao limite inferior da faixa antes da ponta e deixe a massa segurar a temperatura.
  • Não aplique essa manobra em resfriados, em câmara vazia ou com movimentação intensa de porta — ali não há inércia.
  • Programe religamento escalonado após falta de energia, com atrasos diferentes por ativo, do mais crítico ao menos crítico.
  • Trave setpoint e horário da climatização de salão para que o ajuste manual não vire pico às 15h.
  • Coloque limpeza de condensador em rotina com data: condensador sujo sobe pressão de descarga e kW de compressor.
  • Compare a corrente de cada compressor com a nominal de placa e investigue todo motor que roda acima do esperado.
  • Meça o fator de potência hora a hora e olhe a janela de 0h às 6h em separado antes de dar a correção por adequada.
  • Verifique se o banco de capacitores é automático e se todos os estágios comutam — estágio travado é dinheiro parado.
  • Retire da ponta o que não é crítico: compactador de resíduos, forno de panificação, carga de empilhadeira, lavadora de piso.
  • Configure alarme de demanda que dispare dentro do intervalo de quinze minutos em curso, com folga para agir antes do fechamento.
  • Revise a demanda contratada só depois de três a seis meses com o perfil já governado — antes disso você contrata o problema, não a necessidade.

Feita a lista de cima para baixo, boa parte das operações descobre que não precisava de mais demanda contratada. Precisava de horário organizado.

Padronização de horários e setpoint pelo controle online

Tudo isso depende de três coisas contínuas: medir sempre, comparar com a curva normal e agir antes de o intervalo fechar. Planilha mensal e visita técnica chegam depois do fato consumado.

É esse o desenho do módulo de energia da plataforma da Bit Energy: consumo geral ou por equipamento, monitoramento do consumo e da qualidade da energia, gestão da demanda para evitar multas, identificação de variações e desperdícios, comparativos de economia com a causa de cada uma e padronização de horários e temperatura pelo controle online.

No campo, os dispositivos fecham o ciclo entre medir e agir. O Bee é o controlador monofásico: 2 relês, 4 sensores de temperatura e leitura de corrente, tensão e consumo em kW/h. O Tree atende o trifásico — compressores, unidades condensadoras, chillers e splitão — com 4 relês, 3 sensores de temperatura, 2 de pressão, 3 correntes, 3 tensões, consumo, subresfriamento e superaquecimento. Os relês transformam diagnóstico em ação: escalonar degelo, mudar setpoint por faixa horária, escalonar religamento depois de uma falta.

Os dispositivos têm Wi-Fi nativo e dispensam supervisório e cabeamento — o caso da loja antiga sem infraestrutura. Onde já existe CAREL, Emerson, Danfoss ou Full Gauge, a integração aproveita o que está instalado, e a API aberta leva os dados ao ERP.

Entre as falhas detectadas estão sobretensão, subtensão, sobrecorrente e alto consumo energético. E há uma central humana 24/7 por trás: quando o degelo volta errado às 3h da manhã, alguém vê no mesmo horário, não na reunião de fechamento. Nas operações atendidas, a redução no consumo de energia dos equipamentos chega a até 60%.

O caminho é o mesmo: medir o que roda junto, achar o quarto de hora que define o mês e reorganizar o horário antes de reabrir o contrato.

Perguntas frequentes

Resolve a cobrança e cria um custo fixo mensal no lugar dela. Você passa a pagar todo mês por um patamar que usa quinze minutos por mês. Antes de mexer no contrato, identifique o intervalo que gerou o pico e verifique se ele veio de degelo simultâneo, retorno de energia sem escalonamento ou pull-down coincidindo com a hora mais quente. Se veio, o ajuste é de horário e custa muito menos.

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