A fatura chegou com uma linha que não estava lá: demanda de ultrapassagem. Alguns milhares de reais. Ninguém ligou máquina nova, a loja vendeu o mesmo tanto, o kWh está parecido com o do mês anterior.
O que aconteceu foi um intervalo de quinze minutos. Uma queda de energia, ou um degelo que terminou junto em seis evaporadores: todos os compressores voltaram ao mesmo tempo, com as câmaras aquecidas, e ficaram em carga cheia o bastante para o medidor registrar uma média nova.
Essa média virou a demanda faturada do ciclo inteiro. O resto do mês foi bem comportado — e não importa. A conta de demanda não olha média. Olha o pior quarto de hora.
Demanda, ultrapassagem e fator de potência em respostas curtas
O que é demanda contratada? A potência em kW que a distribuidora se compromete a manter disponível — e que você paga todo mês, usando ou não. No Grupo A (média e alta tensão) a tarifa é binômia: energia (kWh) e demanda (kW) em linhas separadas.
Como a demanda é medida? Não é o pico instantâneo do amperímetro. É a média da potência ativa em intervalos de quinze minutos. O maior desses intervalos no ciclo de faturamento é a demanda medida do mês.
O que caracteriza ultrapassagem? A demanda medida passar da contratada além da tolerância regulatória. A referência é a Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021, que consolidou e substituiu a REN 414/2010. A tolerância varia com o subgrupo de tensão — costuma ser 5% para A1, A2 e A3, e 10% para A3a, A4 e AS. Confirme o percentual e o fator do seu caso no texto vigente da resolução e no contrato com a distribuidora.
Quanto custa ultrapassar? A parcela excedente é cobrada por tarifa penalizada — historicamente o dobro da tarifa de demanda — e incide sobre toda a diferença acima da contratada, não só sobre o que passou da tolerância.
E o fator de potência? É a relação entre potência ativa (kW, a que faz trabalho) e aparente (kVA, a que precisa ser transportada). O mínimo é 0,92 — indutivo das 6h às 24h e capacitivo das 0h às 6h — apurado hora a hora, não pela média do mês. Abaixo disso, a distribuidora fatura energia e demanda reativas excedentes.
Que horas é a ponta? Três horas consecutivas, de segunda a sexta, fora de feriados, definidas pela distribuidora — normalmente entre 17h e 22h. Verifique a sua.
Consumo é quanto você usou no mês inteiro. Demanda é quanto você pediu de uma vez, no pior quarto de hora. São duas contas diferentes, e é a segunda que gera penalidade.
Antes de discutir a conta, tenha em mãos: subgrupo tarifário, modalidade (azul ou verde), demanda contratada e o memorial de cálculo da fatura.
O que da fatura a refrigeração realmente mexe
A refrigeração costuma responder pela maior parcela da carga elétrica de um supermercado ou de uma planta de alimentos. Mas não mexe em todas as linhas da fatura do mesmo jeito.
| Componente da fatura | O que a refrigeração faz com ele | Onde se controla |
|---|---|---|
| Demanda contratada (kW) | Não é a soma das placas dos racks e condensadoras que define o valor: é quanto roda junto | Escalonamento de partidas e de degelo; contrato dimensionado pela curva de carga medida |
| Demanda de ultrapassagem | Um único intervalo de 15 minutos com tudo em carga cheia ao mesmo tempo | Alarme dentro do intervalo em curso e corte de carga não crítica antes do fechamento |
| Consumo na ponta (kWh) | Degelo, pull-down e climatização de salão coincidem com a ponta | Antecipar degelo e pull-down; travar setpoint e horário da climatização |
| Consumo fora de ponta (kWh) | Condensador sujo, carga de fluido baixa, degelo em excesso, porta aberta, ventilador parado | Manutenção preditiva e leitura de consumo por ativo, não pelo total da loja |
| Energia reativa excedente (fp abaixo de 0,92) | Motores de compressor e de ventilador em carga parcial puxam reativo | Correção dimensionada pela carga real e verificada hora a hora |
| Excedente capacitivo (0h às 6h) | Banco fixo dimensionado para o pico da tarde segue ligado com a loja fechada | Banco automático ou seccionamento por horário |
| Bandeiras tarifárias | Multiplicam cada kWh desperdiçado | Só há um caminho: reduzir o kWh |
As três primeiras linhas se resolvem com horário. As três seguintes, com manutenção e correção de reativo. São problemas diferentes, com donos diferentes na empresa, e é comum atacar um achando que se ataca o outro. Se o seu caso é consumo alto e não pico, comece pelas 12 verificações antes de culpar a tarifa.
Os quinze minutos que decidem o mês
Um motor de indução em partida direta puxa de 5 a 8 vezes a corrente nominal. É grave: derruba tensão na barra, castiga contator e aquece enrolamento. Só que dura de 1 a 3 segundos. Dentro de um intervalo de 900 segundos, isso pesa quase nada na média.
Ou seja: a corrente de partida é um problema de qualidade de energia, não de demanda. Ela merece atenção pelo dano ao motor e à instalação — assunto de sobretensão, subtensão e sobrecorrente —, mas não é ela que escreve a linha de ultrapassagem na fatura.
Quem escreve essa linha é o que vem depois: o compressor que arrancou fica em carga cheia por 20, 30, 40 minutos. Quando seis fazem isso juntos, o quarto de hora inteiro fica no teto.
A aritmética é simples. Seis compressores de 15 kW somam 90 kW rodando juntos. Se na operação normal só três rodam ao mesmo tempo, o patamar é 45 kW. Basta um evento que junte os seis por quinze minutos para a demanda do mês subir 45 kW — ainda que aconteça uma vez só em trinta dias.
A multa de demanda quase sempre nasce de uma decisão operacional de quinze minutos, não de um contrato mal dimensionado.
Antes de mexer no contrato, reconstrua o evento: peça o memorial de medição do ciclo, localize o intervalo de maior valor e cruze com o que estava ligado. Quase sempre a resposta aparece na primeira tentativa.
Por que a partida simultânea é problema de gestão, não de contrato
A saída óbvia depois da multa é aumentar a demanda contratada. Funciona — e cria custo fixo por doze meses para um patamar que você usa quinze minutos por mês. Trocar penalidade eventual por mensalidade permanente raramente compensa. Na refrigeração, a simultaneidade vem de quatro lugares.
Degelo programado no mesmo horário
Controladores saem de fábrica com horários redondos: 00h, 06h, 12h, 18h. Instalados um a um ao longo dos anos, todos ficam iguais. Duas coisas somam: as resistências de degelo, de 2 kW a 9 kW por evaporador conforme o porte, e o pull-down logo depois, com serpentina quente e câmara aquecida puxando todos os compressores em carga cheia. Corrigir isso é assunto de frequência e duração de degelo.
Retorno de energia sem escalonamento
Faltou luz por vinte minutos. Quando volta, tudo religa no mesmo segundo — e as câmaras aqueceram, então nenhum compressor vai ciclar. Todos entram em pull-down simultâneo por meia hora ou mais. É o cenário clássico de recorde de demanda.
Abertura da loja
Iluminação, climatização partindo com o prédio quente, cortinas noturnas recolhidas nas ilhas e expositores recuperando temperatura de uma vez — tudo no mesmo minuto porque o horário de abertura é um só.
A hora mais quente do dia
Com ar de condensação a 35 °C em vez de 25 °C, a pressão de descarga sobe, a relação de compressão aumenta e o compressor puxa mais potência para a mesma capacidade. A regra de bolso do setor: cada grau a mais na temperatura de condensação custa de 2% a 3% no consumo do compressor. Some o splitão do salão em carga máxima na mesma hora: o pico térmico do dia vira o pico elétrico do mês.
Nenhum dos quatro se resolve com cláusula contratual. Todos se resolvem com horário, sequência e alguém olhando. Contrato bem dimensionado é consequência de um perfil de carga governado — não substituto dele.
Fator de potência: onde a refrigeração estraga o 0,92
Motor de indução só tem fator de potência bom perto da plena carga: 0,85 a 0,88 é típico. A 25% de carga, o mesmo motor despenca para a faixa de 0,5 a 0,6. E refrigeração vive em carga parcial: de madrugada, no inverno, com a câmara já em temperatura.
Some os ventiladores: motores pequenos, muitos, com fator de potência ruim por construção, ligados quase o tempo todo em evaporadores e condensadores. Um a um não parecem nada. Somados na loja inteira, contam.
Daí a armadilha mais frequente: o banco de capacitores fixo, dimensionado para o pico da tarde. Ele corrige bem às 16h. Quando a loja fecha e a carga cai, a mesma capacitância segue injetando reativo numa instalação que não precisa mais dele. O resultado é excedente capacitivo entre 0h e 6h — exatamente a janela em que a regra fiscaliza o lado capacitivo. Corrige-se o dia e paga-se pela noite.
Há ainda os acionamentos eletrônicos. Inversores e partidas suaves entregam bom fator de deslocamento, mas injetam distorção harmônica — que aquece capacitor e pode excitar ressonância com o banco: célula estufada, fusível queimando sem causa aparente, estágio que desliga sozinho. O fator de potência piora em silêncio até aparecer na fatura.
Fator de potência não se estima pela placa: mede-se tensão e corrente por fase, hora a hora. Peça à distribuidora o memorial com o fator horário e olhe as horas de 0h às 6h em separado — muita conta que parece boa na média mensal está sendo penalizada por seis horas de madrugada.
Azul ou verde: a modalidade certa depende do que você consegue deslocar
As duas modalidades horárias do Grupo A cobram demanda de formas diferentes. A escolha depende do que dá para aliviar na ponta.
| Critério | Tarifa horária verde | Tarifa horária azul |
|---|---|---|
| Demanda contratada | Uma só, válida para ponta e fora de ponta | Duas: uma de ponta e uma fora de ponta |
| Energia na ponta | Bem mais cara que fora de ponta | Menor que a da verde no mesmo horário |
| Demanda na ponta | Não há parcela separada | Existe e costuma ser a mais cara da fatura |
| Costuma servir a quem | Consegue aliviar carga nas três horas de ponta | Roda igual nas 24 horas |
| Risco típico em refrigeração | Ponta cara se degelo e pull-down caírem no horário | Demanda de ponta alta por não escalonar partidas |
| Disponibilidade | Unidades abaixo de 69 kV, como A4, A3a e AS | Obrigatória a partir de 69 kV; opcional abaixo |
A comparação honesta só sai com a curva de carga medida hora a hora, de alguns meses — um de verão e um de inverno. Simulação em cima do resumo da fatura erra: o resumo não mostra o comportamento dentro do dia, que é o que decide.
Confirme com a distribuidora os prazos e as condições para trocar de modalidade ou alterar a demanda contratada: há período mínimo de vigência e aviso prévio. E medir por equipamento não exige trocar o quadro elétrico, como está em medir consumo por equipamento.
Ações para reduzir picos sem prejudicar a temperatura do produto
A regra que não se negocia: nenhuma medida de demanda pode empurrar produto para fora da faixa. Câmara de congelados carregada, entre -18 °C e -25 °C, tem inércia térmica na massa e admite manobra. Resfriados de 0 °C a 4 °C, expositor aberto e ilha de laticínios não têm essa folga.
- Levante o horário de degelo de cada evaporador e distribua em janelas diferentes, com 20 a 30 minutos entre grupos.
- Tire o degelo do horário de ponta: além da resistência, é o pull-down seguinte que pesa.
- Antecipe o pull-down dos congelados: leve a câmara ao limite inferior da faixa antes da ponta e deixe a massa segurar a temperatura.
- Não aplique essa manobra em resfriados, em câmara vazia ou com movimentação intensa de porta — ali não há inércia.
- Programe religamento escalonado após falta de energia, com atrasos diferentes por ativo, do mais crítico ao menos crítico.
- Trave setpoint e horário da climatização de salão para que o ajuste manual não vire pico às 15h.
- Coloque limpeza de condensador em rotina com data: condensador sujo sobe pressão de descarga e kW de compressor.
- Compare a corrente de cada compressor com a nominal de placa e investigue todo motor que roda acima do esperado.
- Meça o fator de potência hora a hora e olhe a janela de 0h às 6h em separado antes de dar a correção por adequada.
- Verifique se o banco de capacitores é automático e se todos os estágios comutam — estágio travado é dinheiro parado.
- Retire da ponta o que não é crítico: compactador de resíduos, forno de panificação, carga de empilhadeira, lavadora de piso.
- Configure alarme de demanda que dispare dentro do intervalo de quinze minutos em curso, com folga para agir antes do fechamento.
- Revise a demanda contratada só depois de três a seis meses com o perfil já governado — antes disso você contrata o problema, não a necessidade.
Feita a lista de cima para baixo, boa parte das operações descobre que não precisava de mais demanda contratada. Precisava de horário organizado.
Padronização de horários e setpoint pelo controle online
Tudo isso depende de três coisas contínuas: medir sempre, comparar com a curva normal e agir antes de o intervalo fechar. Planilha mensal e visita técnica chegam depois do fato consumado.
É esse o desenho do módulo de energia da plataforma da Bit Energy: consumo geral ou por equipamento, monitoramento do consumo e da qualidade da energia, gestão da demanda para evitar multas, identificação de variações e desperdícios, comparativos de economia com a causa de cada uma e padronização de horários e temperatura pelo controle online.
No campo, os dispositivos fecham o ciclo entre medir e agir. O Bee é o controlador monofásico: 2 relês, 4 sensores de temperatura e leitura de corrente, tensão e consumo em kW/h. O Tree atende o trifásico — compressores, unidades condensadoras, chillers e splitão — com 4 relês, 3 sensores de temperatura, 2 de pressão, 3 correntes, 3 tensões, consumo, subresfriamento e superaquecimento. Os relês transformam diagnóstico em ação: escalonar degelo, mudar setpoint por faixa horária, escalonar religamento depois de uma falta.
Os dispositivos têm Wi-Fi nativo e dispensam supervisório e cabeamento — o caso da loja antiga sem infraestrutura. Onde já existe CAREL, Emerson, Danfoss ou Full Gauge, a integração aproveita o que está instalado, e a API aberta leva os dados ao ERP.
Entre as falhas detectadas estão sobretensão, subtensão, sobrecorrente e alto consumo energético. E há uma central humana 24/7 por trás: quando o degelo volta errado às 3h da manhã, alguém vê no mesmo horário, não na reunião de fechamento. Nas operações atendidas, a redução no consumo de energia dos equipamentos chega a até 60%.
O caminho é o mesmo: medir o que roda junto, achar o quarto de hora que define o mês e reorganizar o horário antes de reabrir o contrato.
Perguntas frequentes
Resolve a cobrança e cria um custo fixo mensal no lugar dela. Você passa a pagar todo mês por um patamar que usa quinze minutos por mês. Antes de mexer no contrato, identifique o intervalo que gerou o pico e verifique se ele veio de degelo simultâneo, retorno de energia sem escalonamento ou pull-down coincidindo com a hora mais quente. Se veio, o ajuste é de horário e custa muito menos.